terça-feira, 31 de março de 2020

O ódio que você semeia

Mônica Rocha dos Santos



“Se você não vê a minha negritude, você não me vê”. Starr Carter

O filme, O ódio que você semeia, dirigido por George Tillman Jr., é baseado na obra literária de mesmo nome, da autora Angie Thomas. As reflexões trazidas na obra são contemporâneas e extremamente necessárias, fazendo parte do cotidiano estadunidense e também brasileiro, é uma história que precisa ser contada de forma humanizada, como foi abordada na obra.
Starr Carter, protagonista da história, é uma adolescente negra que vive com sua família em uma comunidade negra e frequenta uma escola com o público quase que exclusivamente branco, vive em dois universos contraditórios e vivencia muitas crises de identidade e pertencimento por isso. Após presenciar o assassinato de seu amigo Khalil, jovem negro, por um policial branco, Starr vê todas essas contradições se concretizarem e exigirem uma ação de sua parte.
Muitas reflexões são levantadas na produção, mas a questão central é a violência policial, que colabora com um projeto genocida da população negra. Khalil é assassinado, após o carro em que ele e Starr estarem ser parado pela polícia, que atira de forma arbitrária. Existe toda uma solidariedade da comunidade policial e da mídia para tentar justificar a ação baseada no passado do jovem e não nas circunstâncias que culminaram com seu assassinato, em uma óbvia tentativa de criminalizar a vítima.
Fatos como esses são corriqueiros no Brasil, em 2015 houve uma chacina no Cabula, bairro de Salvador, com a morte pela Polícia Militar de 12 jovens negros (Evson Pereira, Ricardo Vilas Boas, Jeferson Pereira, João Luis, Adriano de Souza, Vitor Amorim, Agenor Vitalino, Bruno Pires, Tiago Gomes, Natanael de Jesus, Rodrigo Martins, Caique Bastos), até hoje o caso continua sem solução e, na época, a integridade da vida dos jovens foi assunto da mídia. Outro caso também de 2015, que choca pela brutalidade, foi a chacina de Costa Bairros no Rio de Janeiro, onde a ação policial matou 5 jovens negros (Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton e Wesley) com 111 tiros, outro caso que ainda não teve um desfecho para as famílias das vítimas, que precisaram provar a humanidade de seus mortos e criar empatia, para se livrarem das tentativas de justificar a ação policial.
As famílias negras que perdem seus entes para a ação policial precisam com frequência provar a condição de vítima dos corpos negros e contar suas histórias, para que haja empatia do público geral. As vítimas tornam-se réus diante do julgamento público.
A obra fictícia narra a união da comunidade negra para que o Khalil não se torne o réu do crime que o vitimou, assim também acontece no Brasil, vozes negras se erguem para denunciar situações como essas, que acabam a cada dia se tornando mais corriqueiras e naturalizando essa violência.
Um dos panos de fundo da obra é a relação de pertencimento à comunidade negra que cerca Starr. Ao mesmo tempo que a jovem vive em uma comunidade cercada pela violência, é nesse espaço que ela se reconhece como jovem negra, cria seus gostos culturais e estabelece vínculos. Ela não está isolada nesse universo e com frequência lida com crises de identidade/pertencimento pelo contato com os colegas e namorado branco, bem como pela vivência escolar.
É na escola que ela percebe-se diferente, que precisa a todo tempo não parecer suburbana demais, negra demais...é nesse espaço que as violências acontecem de forma sutil e fazem com que Starr perceba desde sempre que precisa viver controlando seu linguajar, roupa, estilo, gostos, para ser aceita e não questionada.
Durante muito tempo a relação de Starr com seus amigos foi essa, negando sua identidade negra periférica para ser aceita no grupo. Quando a morte de seu amigo a faz agir diferente, seu posicionamento é questionado, sua coerência e sabedoria são colocadas à prova. Mostrando como em muitas situações cotidianas a presença negra é tolerada enquanto não questiona o status quo, enquanto são amigáveis.
A protagonista passa boa parte da história tentando se decidir entre manter o anonimato para a mídia, como única testemunha do assassinato de Khalil, ou se lidera os movimentos da comunidade negra de protesto pela violência policial. Ela não queria ser a pessoa que levanta a sua voz para falar em nome de uma causa, de uma comunidade, queria lidar com a dor quietinha, esperando tudo passar. Mas, ela precisa falar, precisa dizer o que viu e precisa representar o grupo.
A dúvida de Starr é a dúvida de muitos militantes e anônimos negros. A gente não quer ter que levantar as nossas vozes, mas somos obrigados a gritar, diante de uma sociedade, de um sistema que tenta de diversas formas, todos os dias, nos exterminar. Muitas vezes somos os únicos em determinados espaços, grupos, situações e essa experiência exige de nós ação. Às vezes, nós só queremos ficar quietinhos, mas nem sempre temos essa opção.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

“Nós, mulheres, não somos ouvidas, mas vistas”


Aline G. Andrade




Para muitos pode parecer um choque os relatos expostos pelas pesquisadoras Adriana, Juliana T., Caroline e Juliana M. em seu artigo “Assédio Sexual no Contexto Acadêmico da Administração”, mas para as mulheres é só algo do cotidiano acadêmico, finalmente emergindo para debates. As pesquisadoras, à época respectivamente graduanda, mestranda e doutoras, apresentam em um Congresso Acadêmico o artigo que se torna uma forma de denúncia sobre inúmeros casos de assédio sexual dentro da academia, em especial na Administração. São relatos em formato de entrevistas, nos quais são analisadas as formas em que o machismo e o assédio rodeiam nossas vidas, e que podem passar despercebidos. 

Com a frase “Nós, mulheres, não somos ouvidas, mas vistas”, as autoras ilustram como dentro do ambiente acadêmico nós, mulheres, somos julgadas pela conduta e vestimenta, mas nunca pelo que temos a oferecer para os debates, as pesquisas e a área acadêmica em si. O machismo se aflora na academia de diversas formas, desde a valorizar mais a “beleza” do que o intelecto, até o questionamento da capacidade da mulher de exercer certas funções, principalmente as de liderança. 

O assédio é uma prática institucionalizada nesse ambiente, onde muitas de nós sofrem caladas, principalmente por conta das relações de poder: muitas vezes, os assediadores são homens que estão acima na hierarquia acadêmica. Esse silêncio se dá pelo medo de não ser ouvida, da estética ditar quem pode ou não sofrer o assédio, não receber empatia, de sofrer retaliação e, principalmente, de não haver mecanismos institucionais efetivos para lidar com o problema. 

Por fim, aos poucos estamos conseguimos trazer essa temática para discussão e conscientização, mas ainda são muitos os desafios a serem enfrentados. Ainda precisamos, e muito, batalhar por um espaço de diálogo e denúncia institucional efetivo, que nos tragam garantias e segurança, seja no ambiente acadêmico ou em qualquer outro lugar.

Referência
TEIXEIRA, J. C.; SILVA, C. R.; MESQUITA, J. S.; RAMPAZO, A. da S. V. Assédio Sexual no Contexto Acadêmico da Administração: Relações de Poder Cotidianas sobre as quais elas já disseram, e nós vamos dizer mais, e agora? In: V CBEO - V Congresso Brasileiro de Estudos Organizacionais, 2018, Curitiba/PR. Acesso em: 16 de set de 2019.

domingo, 18 de agosto de 2019

Racismo genderizado


Por Mônica Rocha dos Santos


“(...) Você gostaria de limpar nossa casa” –
Conectando “Raça e gênero”

Grada Kilomba, no seu texto, nos faz revisitar nossas próprias memórias, ao narrar situações que fizeram parte da sua infância e que em algum grau pode ter acontecido ou acontecer com outras meninas negras. Os seus questionamentos sobre as conexões entre raça, gênero e racismo, também se transformam rapidamente em nossos questionamentos.

A pergunta de onde está à mulher negra dentro das discussões de gênero ou dentro das discussões raciais, perpassa todo o texto, ficando evidente o lugar invisível dessas sujeitas na literatura e na militância. As demandas das mulheres negras não se encaixam apenas em um desses grupos, logo são esquecidas por ambos.

É importante entender a mulher negra em um contexto onde são acometidas por múltiplas opressões, que muitas vezes não podem ser hierarquizadas, pois agem de forma interseccional.  Assim, Kilomba fala de racismo genderizado para definir o “racismo sofrido por mulheres negras como estruturada por percepções racistas de papéis de gênero”.

Somos alertadas(os) para o papel da mulher negra como sujeitas falantes “que estão transformando a teoria” e principalmente a importância da mulher negra como pesquisadora  fato que pode “implicar tanto as maneiras pelas quais ‘raça’ e gênero têm sido teorizado até agora quanto para a teoria social em geral”. 

sábado, 17 de agosto de 2019

Marcha das Margaridas


Cecília Braz Arcanjo




“Olha Brasília está florida
Estão chegando as decididas
Olha Brasília está florida
É o querer, é o querer das Margaridas
Somos de todos os novelos
De todo tipo de cabelo
Grandes, miúdas, bem erguidas
Somos nós as Margaridas
Nós que vem sempre suando
Este país alimentando
Tamos aqui para relembrar
Este país tem que mudar!”

Elas são camponesas, produtoras, trabalhadoras, agricultoras, quilombolas, indígenas, pescadoras, ribeirinhas. As Margaridas se reúnem a cada quatro anos na capital brasileira, em forma de marcha, para reivindicar direitos e políticas públicas voltadas às trabalhadoras do campo. Em 2019, a Marcha das Margaridas reuniu cerca de 100 mil mulheres no coração de Brasília, inundando o Eixo Monumental de roxo, cor oficial da marcha. Aos poucos a Esplanada dos Ministérios foi sendo colorida, ocupada por flores e cantos, tambores e violas, saias e chapéus floridos, tintas e penas.

O lema da Marcha esse ano foi “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência". A organização da Marcha elaborou uma Plataforma Política, organizada em eixos temáticos, que nasceu de discussões e reflexões acerca dos desafios vivenciados pelas trabalhadoras rurais. Mais do que uma pauta única, as Margaridas apresentam propostas concretas para avançar na construção de uma sociedade democrática, mais igualitária e com respeito à natureza. Os eixos temáticos incluem desde temas ligados à biodiversidade e conservação ambiental até assuntos que englobam a autonomia e liberdade das mulheres.

Assim, a defesa do meio ambiente é pauta central do movimento, porém as mulheres não esgotam suas reivindicações nesse campo. Elas trazem à tona um debate complexo, que abrange a dominação patriarcal que permeia as relações humanas, a opressão nas formas de trabalho, o racismo estrutural e a intolerância religiosa como instrumentos de dominação sobre as mulheres, promovendo a violência contra seus corpos e ameaçando sua existência. Dentre as bandeiras levantadas por elas estão a luta pela proteção social do trabalho, o direito de acesso ao SUS, a reforma agrária, a demarcação das terras indígenas, a preservação das florestas, a educação pública de qualidade e o combate ao racismo, à violência, ao trabalho escravo e à exploração da natureza.

Em suma, as Margaridas alimentam o sonho por uma sociedade mais igualitária e diversa, desenvolvida sustentavelmente e pautada pelos pilares da justiça e soberania dos povos, nos deixando uma lição de democracia e justiça social!


O nome da marcha é uma homenagem à Margarida Maria Alves, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, assassinada em 1983 por latifundiários. Nada mais vivo e atual do que rememorar a luta de mulheres guerreiras como Margarida. Mal sabem eles que, quando nos podam, viramos semente!

Como diz nosso canto feminista “Companheira me ajude/ Que eu não posso andar só/ Eu sozinha ando bem/ Mas com você ando melhor”.

Juntas somos mais fortes!
Margarida vive!


Para saber mais sobre a Marcha das Margaridas, clique aqui.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

NANETTE


Tamirys Jordânia de Freitas Castelo Branco



Com o nome inspirado em uma ex-namorada, a comediante Hannah Gadsby criou a performance chamada Nanette, estreada em 2017. No seu texto, ela narra seu processo de auto aceitação com relação a sua orientação sexual e as batalhas vividas ao longo dessa construção como pessoa em sociedade, num momento e num lugar em que a homossexualidade era tida como doença.
          Criando levemente algumas tensões ao longo da apresentação, Hannah aborda, pontualmente, questões sociais naturalizadas pela cultura sexista que paira sobre a sociedade atual. Para instigar seus espectadores e levá-los a refletir, a autora da performance conta, de maneira humorada porém incisiva, experiências próprias vividas ao longo de sua história que envolvem violência, preconceito, dentre outras injustiças, fazendo com que o público que a assiste tenha a auto percepção de estar rindo, naquele momento, de algo que não tem a menor graça para quem vive a situação.
          Ao tempo em que faz rir, a apresentação também induz a pensar no real motivo do riso, nas reais intenções que uma piada, categoricamente, tem quando expõe banalmente problemas sérios que a sociedade vive.
          Ao que parece, Nanette é a última apresentação de Hannah na modalidade “stand-up”, pois a comediante afirma que não se sente mais à vontade em ridicularizar a própria condição para proporcionar o riso ao seu público.
Com uma crítica direcionada à héteronormatividade e a outros fatores ligados a ela, a autora do “show” encerra a apresentação alertando para as piadas autodepreciativas que muitas pessoas  que fazem parte da comunidade LGBTQI+ fazem e recebem/permitem ser alvo para serem “aceitas” no meio social estigmatizado, sobretudo aquelas pessoas que possuem aparências que desviam do padrão que a sociedade impôs.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Enegrecer o feminismo


A situação da mulher negra da América Latina a partir de uma perspectiva de gênero

Daniela de Oliveira Dantas


Uma luta não vista pela sociedade é travada todos os dias pelas mulheres negras, pois, além de lutarem contra a desigualdade social imposta por uma sociedade historicamente machista, precisam lutar também contra a desigualdade por serem mulheres negras. Desta vez não é apenas a dura desigualdade contra a mulher em seu gênero, mas a desigualdade contra a mulher somada a sua pele negra.
As causas são diversas e as consequências são históricas. Desde sempre a mulher negra foi erotizada e se não servia para ser um objeto sexual, poderia ser empregada doméstica na casa de mulheres brancas privilegiadas pela pele alva. Ser mulher e ser negra em uma sociedade intolerante é travar diariamente uma luta invisível contra o preconceito, uma vez que lutar pelos seus direitos de mulher negra é considerado por muitos apenas uma simples "frescura". Além do mais, para a classe privilegiada, racismo, preconceito, machismo são coisas que não existem, uma mera invenção pra chamar atenção.   
A questão é que o lugar da mulher negra não é limpando o chão onde pisam as mulheres brancas. Lugar de mulher negra não é sendo erotizada por homens, mulher negra não é sinônimo de objeto. Lugar de mulher negra é no mais alto lugar onde ela possa ser vista pela sociedade, como alguém igual, onde seu gênero e sua cor não digam quem ela é, afinal de contas igualdade é para todos e todas.

Absorvendo o tabu


Ana Beatriz Soares Portela







O documentário Absorvendo o tabu, produzido por Rayka Zehtabchi relata como a população de uma pequena vila rural ao redor de Delhi, na Índia, lida com a menstruação. O curta, de apenas 26 minutos, pode parecer repetitivo, pois ouve relatos de diversas mulheres sobre como elas são tratadas quando estão menstruadas, mas busca justamente revelar o grande tabu que existe quanto a algo natural que toda mulher enfrenta durante sua vida.


As mulheres desta pequena vila rural não possuem acesso a absorventes, o que faz com que elas utilizem panos nada higiênicos, ou não usem nada. Essas que se sujam de sangue são segregadas da sociedade em diversos âmbitos: religiosos, trabalhista, etc. De acordo com o depoimento de uma das mulheres entrevistadas, muitos templos religiosos as rejeitam por considerar as mesmas sujas, impuras, etc. Além disso, os homens também não possuem conhecimento algum do que seja a menstruação, pelo menos alguns, o que fortalece, ainda mais, a ideia de tabu quanto à menstruação, pois é algo natural que deve ser de conhecimento de todos.

Ao longo do curta um pequeno empresário descobre uma máquina que ajuda na produção de absorventes e a fim de fazer com que as mulheres daquela região saibam da importância da utilização do absorvente para a saúde e higienização das mesmas, ele convida algumas mulheres para começarem a produzi-los. Com isso, as mulheres empreendedoras vão crescendo na produção e levando os absorventes produzidos por elas para outras mulheres, fazendo, assim, uma grande revolução na vida das mulheres da região.

Além disso, trazem autonomia financeira e social para elas, ou seja, de fato é uma grande revolução, ajudando até mesmo no fator psicológico. Enfim, o curta apresenta uma sociedade altamente preconceituosa quanto a um tema que deve ser normal para todos, uma vez que não é uma escolha da mulher, e sim algo unicamente natural do corpo feminino. O filme é uma denúncia do péssimo tratamento dado às mulheres, o que as discrimina e segrega no dia a dia de suas comunidades, sendo algo desumano, apenas por elas estarem no período menstrual.



Cine debate 2